Como irritar seu orientador?

Em post anterior, discuti as atribuições do orientador que representam apenas uma parte da engrenagem. A orientação é um trabalho em conjunto, uma parceria. Logo, é fundamental que os alunos saibam quais são suas atribuições e obrigações. Estar plenamente consciente, em relação às responsabilidades de cada parte, torna a jornada mais simples. Além do mais, fazer um doutorado é, por si só, uma aventura desafiadora.

Uma maneira de abordar a questão, sobre as responsabilidades do aluno, é listar o que se espera de um bom estudante. Entretanto, vou focalizar o problema por uma perspectiva diferente. Ao invés de elencar os desejáveis atributos de um aluno, vou indicar os comportamentos dos alunos que mais irritam os orientadores. Assim, caso um estudante deseje contrariar o orientador e fazê-lo perder a paciência, esse será seu guia.

Sumir

Simplesmente, desapareça. Não responda e-mail. Não se comunique nem por sinal de fumaça. Essa é a maneira mais simples de irritar seu orientador. Durante o período de orientação, o aluno e o orientador devem ter reuniões regulares e, provavelmente, várias reuniões curtas, diria até, informais. O estudante deve aproveitar esses momentos não apenas para se familiarizar no enredo da pesquisa, mas também para melhor entender o microcosmos da academia.

Entregar um relatório desleixado

Avaliar um relatório mal escrito, mal formatado e desorganizado é uma tarefa desagradável. Se o próprio autor do relatório não é zeloso com sua obra, por que os outros devem ser? O estudante deve cuidar de todos os detalhes: fonte, espaçamento, figuras, tabelas, equações, referências, uso correto da linguagem, escrita científica, entre outros. Vale destacar que o orientador não é um corretor ortográfico e nem um professor de português (ou de inglês). Ele é o especialista no assunto da pesquisa. Assim, não desperdice o tempo dele com atividades simples que você poderia facilmente realizar, como usar um corretor ortográfico. Dica: ao finalizar o relatório, guarde-o por um tempo e depois releia-o prestando atenção tanto à forma quanto ao conteúdo. Você, provavelmente, encontrará vários pontos de melhoria antes de enviá-lo ao seu orientador.

Não cumprir prazos

Prometeu, cumpra. Se não está certo de quanto tempo necessitará para escrever um relatório, para sintetizar os artigos do estado-da-arte ou para avaliar/implementar um técnica, simplesmente infome que precisa de uns dias para melhor estimar e planejar as atividades. Porém, depois que o cronograma estiver pronto, informe o seu orientador e cumpra-o. Imprevistos ocorrem com todos. Entretanto, não informar que irá se atrasar e não explicar o motivo, fere o acordo previamente firmado.

Pedir ajuda antes de tentar resolver o problema sozinho

“Professor, como faço para adicionar uma equação no Latex? Qual é a data da matrícula?” Esse tipo de pergunta, certamente, deixará o orientador irritado, pois, com um mínimo de pró-atividade, o aluno resolveria essas questões facilmente. Para a primeira questão, resolva conversando com outros estudantes ou buscando na Internet, google it! Já para a segunda questão, uma ida a secretaria, ou ao site do programa, seria suficiente. Novamente, não gaste o tempo do seu orientador com atividades pouco proveitosas para o âmago do seu doutorado.

Sair da reunião sem a menor noção do que foi discutido

Ao final de uma reunião com o orientador, o aluno sai com algumas tarefas definidas. Ao regressar à sala do orientador, quinze dias depois, o aluno informa ao orientador que não realizou o experimento acordado, pois não entendeu o que foi solicitado na reunião. Para sanar esse tipo de situação: pergunte! Peça ajuda. O orientador não lerá a sua mente. Dica para o orientador: peça para o aluno lhe explicar o que foi planejado para os próximos dias. Visto que, o aluno só conseguirá explanar o que entendeu. Dica ao aluno: ao final da reunião escreva uma e-mail/ata com o que foi discutido e acordado na reunião. Caso o aluno tenha esquecido algo, ou incompreendido algum ponto, o orientador estará ciente e poderá auxiliar.

Concordar com tudo o que o orientador diz

Concorda com tudo? Esse é o seu doutorado! No início é natural que você concorde com muito do que é dito pelo orientador; além do mais, ele é o pesquisador experiente. Mas, ao longo do percurso, o aluno deve amadurecer e começar a liderar algumas iniciativas relacionadas ao desenvolvimento da pesquisa.


As principais causas de conflitos entre alunos e orientadores são: i) os alunos reclamam da falta de feedback do supervisor e ii) os orientadores reportam falta de habilidade em pesquisa do aluno.

Diante do exposto, é dever de ambos manter uma relação respeitosa, amigável e construtiva. Mas, do ponto de vista do estudante, ele pode controlar melhor a relação se: i) cumprir os prazos, ii) preparar-se para as reuniões, iii) estar aberto a receber críticas, e iv) demonstrar conhecimento e amadurecimento na área da pesquisa.

Atribuições do orientador

Vários fatores podem influenciar a busca pelo título de doutor, ou de mestre, e esses fatores são classificados em internos e externos. Motivação, autoestima e confiança são exemplos de fatores internos. Dentre os fatores externos, é possível citar: vida pessoal, financiamento da pesquisa, estrutura do departamento, além, claro, da supervisão/orientação.

De todos os fatores, a supervisão é o mais importante para se alcançar o sucesso almejado pelas instâncias envolvidas: aluno, orientador, programa de pós-graduação e sociedade.

O trabalho de supervisionar o aluno é atribuição do orientador (tipos de orientador). A relação do orientador com o orientando varia de orientação para orientação. Cada aluno possui características particulares que devem ser levadas em consideração durante o progresso da pesquisa. Mas, independente dessas especificidades, podem-se listar algumas atribuições/propriedades de uma boa orientação, tais como:

Dedicação/Disponibilidade: refere-se ao tempo que o orientador dispõe para trabalhar com o estudante. É imprescindível que tenham reuniões regulares, assim, o orientador pode aferir o andamento da pesquisa e o amadurecimento do aluno, e o aluno pode ser aconselhado mais rapidamente. Dicas para o aluno: i) antes da reunião, envie um relatório reportando os avanços alcançados, bem como as limitações/desafios, e, ii) sempre, ao final de uma reunião, envie um email/ata registrando o que foi discutido.

Condução/Opiniões precisas: a pesquisa é uma tarefa mal-definida (ill-posed problem) que pode gerar ansiedade e sensação de estar andando em círculos. Um bom orientador deve ser capaz de i) auxiliar o aluno a desbravar esse ambiente recheado de incertezas, e ii) dar opiniões precisas sobre alternativas para os percalços que sucedem durante a pesquisa. Também é papel do orientador sugerir um redirecionamento da pesquisa caso perceba que uma “rua sem saída” se avizinha. Esse acompanhamento, constante e próximo, tem por objetivo verificar se a tese será finalizada no prazo, além de informar, de maneira clara, caso tenha chegado o momento de interromper a parceria.

Suporte/Relação de apoio: é senso comum que, para orientar, é necessário conhecimento técnico aprofundado na área da pesquisa. Sem tal conhecimento, o orientador fica impossibilitado de guiar o aluno nos meandros da pesquisa. Mas, apenas dominar técnicas e métodos não é suficiente. O bom orientador deve dispor de algumas características pessoais que facilitem sua comunicação com os orientandos. Ele deve inspirar o aluno e ser um entusiasta na pesquisa, além de ser respeitoso e altruísta. Tais características permitem que o aluno sinta-se mais seguro em relação aos desafios da pesquisa e, também, ajudam-no a desenvolver habilidades fundamentais para sua vida profissional.

Mesmo correndo o risco de ser redundante, reforço que é atributo do orientador revisar e avaliar relatórios, artigos e teses de seus orientandos em um prazo viável. Se um artigo, uma proposta de tese ou mesmo uma tese ou dissertação ainda não tem a qualidade necessária para ser submetido aos avaliadores, o orientador tem o dever de comunicar isso ao aluno e, também, de ajudá-lo indicando o que é preciso ser melhorado.

Por outro lado, vale salientar que o aluno deve estar ciente que o orientador possui várias atividades, além da orientação. Assim, o aluno deve escrever seu documento de uma maneira que facilite a vida do orientador e que lhe desperte o desejo de ler aquele documento o quanto antes. Mas, as atribuições dos alunos é assunto para outro post.

É papel do orientador manter a sinergia durante o fluxo de trabalho. Não é papel do aluno provar para o orientador que ele consegue fazer pesquisa sozinho, pois, se assim fosse, o orientador seria desnecessário. A pesquisa deve ser desenvolvida em conjunto, é uma parceria na qual o aluno está sendo treinado para realizar pesquisa de alto nível. Desse modo, a qualidade do processo de supervisão pode ser definida como uma função que mede a interação entre orientador e orientando.

Afinal, orientadores disponíveis, que deem opiniões precisas e que mantenham uma relação profissional saudável, podem ser decisivos na formação da próxima geração de pesquisadores.